domingo, 24 de fevereiro de 2013

A Vida é feita de Momentos


A vida é feita de momentos. Muitos deles logo que começam, acabam. Outros, embora não sejam eternos, persistem de alguma forma repetidos no tempo, ainda que algo diferentes.
Há momentos de alegria, há momentos de dor... Há momentos que duram horas e parecem durar segundos e momentos que duram segundos e parecem nunca mais acabar...

Tal como a vida de todos nós, a minha tem sido feita de muitos momentos, mas isso não significa que tenha sido uma vida rica. Não. Pelo contrário. Muitos desses momentos pareceram cópias exactas dos anteriores. O tempo passava, mas a vida sucedia-se num incessante replay impossível de deter, ainda que o tentasse fazer.
Pelo meio desses anos, houve alguns momentos diferentes, claro, e importantes, de uma certa viragem. Um dia, achei que essa viragem era óptima e decisiva. Estava feliz. Pensava para comigo "os ventos estão a mudar, e a partir de agora tudo vai ser melhor". Mas era mentira.

Cedo, a minha alma foi entendendo que aquele caminho levava a um beco sem saída, ainda que eu tentasse negar os factos e os sinais que ela me mostrava. Havia momentos de grande intensidade, em que a minha parte terrena e consciente via os sinais que a alma triste, enclausurada, tentava desesperadamente enviar-me. Pedidos de socorro, quase insurdecedores. E a cada momento desses que surgia de novo, o grito era mais agudo e penetrante! E eu dizia "NÃO! Eu sei o que me queres dizer, mas não é a ti que cabe decidir a minha vida! É a mim!". E ela voltava a calar-se, durante algum tempo. E eu, lá continuava, consciente de que fazia uma escolha que quase de certeza me levava ao abismo, ainda que pensasse que as consequências seriam pouco significativas.

Mas não eram. E tal não eram, que um dia, sem que eu desse conta e como que por um acaso, a minha alma libertou-se, sozinha. E apareceu à minha frente, olhando-me nos olhos, com uma intensidade nunca antes vista! De tal forma que quase desmaiava tal era a força do seu olhar. E aí ela transmitiu-me a sensação do que era ser Livre, do que era Voar e ser Feliz, do que era ser Eu de novo! A Magia de Viver outra vez! Sim, isso mesmo, Viver. Nesse momento, entendi que estava quase morta, quase sem vida. Essa tinha sido a consequência do caminho que escolhera. Como era possível eu não ter percebido isso antes? Foi preciso a minha alma libertar-se e mostrar-me o que estava a perder.

Não pensei duas vezes! Arrumei as malas e saí daquela casa, de escuridão, de submissão, terror e solidão. Para voltar a ser eu, com Voz, com vitalidade para dizer quem eu era e o que queria fazer da minha Vida. A partir desse momento, queria apenas viver. Viver, viver, viver... até não poder mais, até chegar estafada ao fim do dia e dizer "Estou cansada, mas estou Viva!" e sorrir, rir, cantar e dançar com uma alegria imensa! Redescobri prazeres antigos, alimentei o propósito de descobrir prazeres esquecidos, descobri prazer em actividades que não sabia que me satisfaziam... Estava viva, e queria mostrar isso ao mundo, a Mim Mesma! Que não fosse apenas mais um pensamento que se esquecia e perdia no tempo, como tantos outros... NÃO! Desta vez era para acontecer a sério! E nunca mais voltar atrás.

Parte dessa Vida, dessa Magia, estava fora de mim. E reconheço que algum desse grande entusiasmo era alimentado por essa fonte... talvez tenha sido esse o meu grande erro... talvez a mudança tenha sido tão repentina que eu precisava de tempo para me ajustar a ela. Talvez eu não estivesse ainda preparada para lidar com essa força de Viver que durante tanto tempo tinha estado ausente. Era preciso construir alicerces primeiro, alimentá-la com um alimento perene, que se mantivesse inalterado no tempo, mas eu não o fiz... Como seria de esperar, tal como acontece com as casas sem alicerces, essa força, um dia fraquejou. E eu tentava ao máximo que ela se mantivesse, mas... uma alteração importante tinha acontecido. A fonte onde ia buscar parte dessa força estava a secar e ainda que eu teimasse em acreditar que não era ela que me movia, eu fui percebendo que talvez a maior parte, eu tinha começado a sugá-la de fora de mim. Ainda sem saber o que estava a acontecer, apenas tendo noção de que a fonte estava a secar, tentei ao máximo aproveitar a pouca água que ela me dava. Construí diques, elaborei canais e armazenei a água em depósitos, mas era impossível impedir o normal curso dos acontecimentos. A fonte estava a secar, e a água um dia deixou mesmo de correr. Num dia caiu um pequena gota e no dia seguinte, a pedra da fonte estava completamente seca.

Olhei para dentro de mim, desolada, e olhei a minha alma novamente nos olhos. Ela já não irradiava toda aquela cor e energia... Também não estava cinzenta e vazia, mas o seu sorriso já não existia e a sua vontade de cantar, dançar e mostrar ao mundo que estava livre, já não transparecia no seu olhar. Prometi a mim mesma, mais uma vez, e à minha alma também que apesar de tudo, não voltaria àquele quarto escuro onde tínhamos vivido tanto tempo. Era passado! E não voltaria a assombrar as nossas vidas. Pelo menos, não dessa forma. Nesse dia, percorremos quilómetros, fartámo-nos de andar, andámos até não podermos dar mais um passo. A ideia era fugir, fugir do silêncio e nunca parar, mesmo que fosse sem um rumo definido. Pois no momento em que parássemos, no momento em que o silêncio viesse e voltássemos a olhar-nos nos olhos, a dor ia ser atroz e as lágrimas iam cair torrencialmente...

Inevitavelmente... foi o que aconteceu. Não deu para fugir mais... Ficámos horas ali, entregues uma à outra, tentando consolar esta dor inconsolável de ter perdido uma força inigualável, parte da essência que nos define, uma parte de nós... que existia miraculosamente naquela fonte.
Mas depois de limparmos as lágrimas uma à outra, era tempo de partir para uma nova viagem. Não nos podíamos entregar à tristeza. Isso fazia parte do passado. Agora, era tempo de enfrentar os desafios e, apesar dos obstáculos e dos tropeções, nunca, NUNCA MAIS nos rendermos. O dia seguinte amanheceu solarengo e ameno. Os campos lá fora estavam floridos, regados pela chuva que caíra durante a noite. Olhámos uma para a outra e sorrimos. Um sorriso confiante, de que juntas, apoiadas uma na outra, seríamos capazes de construir um novo caminho, desta vez mais sólido e consistente. Só teríamos que ter paciência e talvez um pouco mais de contenção. Não querer viver tudo num dia, cheias de entusiasmo. Pois esse entusiasmo seria fundamental para nos alimentar nos dias seguintes. Não o podíamos esgotar num só dia. Era necessária inteligência para o dosear. Combinámos isso uma com a outra. Iríamos ter mais cuidado desta vez... E assim foi.

Dia após dia voltámos a fortalecer-nos, desta vez sem o auxílio do exterior, mas apenas de nós próprias, uma com a outra. E começámos a reequilibrar o que havia sido perdido. Já conseguíamos sorrir de novo, já conseguíamos ter um pouco mais de vontade de cantar e dançar... nunca com a mesma vitalidade de antes, mas já era muito bom assim. Até ao dia em que surgiu o Amor... do nada, de repente! Um Amor nunca antes vivido. Maduro, sólido e, pela primeira vez, que se conseguia visualizar ao longe, no futuro...
Um Amor de companheirismo, de partilha, amizade e compreensão.

"Mas CUIDADO!", diz a minha alma... "Não te esqueças de dosear o entusiasmo...", acrescenta piscando-me o olho. ;)
E eu sorrio, e aceno que sim...


24 de Fevereiro de 2013



sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Calor que aquece a Alma

Saio à rua e olho o céu estrelado.
O vento atinge-me, frio, cortante, feito de um gelo afiado que fere...
Arrepio-me... aconchego mais a roupa ao meu corpo.
Não resulta, mas não cedo.
Quero manter-me quente para seguir o meu caminho, o meu destino e não voltar para trás.
Quero tentar mais vezes, não me deixar intimidar por esta força da Natureza e honrar os meus antepassados que, com engenho, superaram as dificuldades da Vida, dessa entidade magestral que conduz tudo com mestria sem que percebamos como.

E tal como foi a Vida que trouxe este vento gélido à minha porta, também foi ela que trouxe um calor diferente daquele que conheço.
Um calor aconchegante, que envolve num abraço moldado a mim, ao que sou em todos os meus pormenores. Um calor ameno, mas que aquece a Alma como nenhum outro, sem queimar.
O calor do Amor, que tão rapidamente desperta e dá vontade de rir e dançar alegremente, como acalma e embala numa Paz sem igual... 

De repente... sinto uma força maior.
O vento frio já não me assusta. Enfrento-o, já quente, sem qualquer receio, e com toda a coragem.
Agora, sim, estou pronta para voar...

16 de Fevereiro de 2013



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Destinos Cruzados


Era uma vez um rapaz esbelto, que irradiava as mais belas cores do arco-íris de dentro do seu coração. Ele vivia só, no seu mundo de sonho e perfeição, um mundo que conhecia bem, como à palma da sua mão e que controlava e alterava conforme os seus desejos.

Um dia podia chover e ele logo afastava as nuvens para fazer brilhar um sol radioso; um casal podia discutir, mas ele logo arranjava um acontecimento particular que os fizesse fazer as pazes. Até que houve um dia em que uma rapariga se cruzou no seu caminho e lhe fez palpitar o coração, como nunca antes alguém o tinha feito.

Ele não sabia bem o que se passava consigo, mas algo lhe dizia que devia conhecê-la melhor. Então, no dia seguinte, meteu conversa com ela e perceberam logo ali, os dois, que algo de forte os unia, embora nunca tivessem percebido bem o quê. E foram falando, trocando olhares, trocando palavras meigas e confidências... e o rapaz começou, na ausência da rapariga, a reproduzir o que acontecia entre eles e os sonhos que ía construindo com ela no seu tal mundo imaginário que criava todos os dias à semelhança do que considerava ser uma perfeição. e, da mesma forma, os desejos que colocava no seu mundo imaginário, transportava-os para o mundo real na esperança de os concretizar.

Mas ele não podia dominar nem controlar o mundo real. Os acontecimentos começaram a desenrolar-se de uma forma completamente distinta. A rapariga gostava muito dele, mas tinha a sua maneira de ser - irreverente, divertida, pronta para viver o mundo num só dia, todas as emoções num só momento. Ele, por sua vez, preferia ter a certeza dos seus passos e não se entusiasmar muito pois não sabia se o desfecho daquela história seria feliz, e assim não teria que sofrer tanto.

Então ele começou a ficar assustado e a refugiar-se cada vez mais no seu mundo de sonho e imaginário, onde a rapariga era exactamente como ele gostava que ela fosse e onde tudo era perfeito. E, por isso, na vez seguinte em que a voltou a ver, ela pareceu-lhe diferente da rapariga que tinha visto no primeiro dia. Pareceu-lhe desequilibrada, ansiosa, insegura... nada comparada à rapariga do seu mundo de sonhos - calam, generosa, confiante.

Então decidiu afastar-se. Enquanto ele não visse que ela era a pessoa que mostrara ser no primeiro dia, ele manter-se-ia afastado, pois não sabia lidar com essa inconstância, essa mudança que ela aparentava todos os dias. Ele só sabia lidar com o que conhecia, com o que estava previsto e que ele podia controlar - o seu mundo imaginário. A rapariga não entendia esse afastamento, não entendia essa mudança brusca da sua atitude para com ela. Sentiu-se magoada e triste pois acreditara que ele era o homem com quem sempre sonhara.

Um dia, após um longo tempo de introspecção, ela leu algo que ele tinha escrito anos antes e aí percebeu que o que o afastava era o medo, o medo de sofrer de novo, o medo que a sua realidade não pudesse ser perfeita como no mundo dos sonhos. O medo de não ser capaz de aceitar e de lidar com a felicidade.
Nesse dia, afastaram-se, com a certeza de que os seus corações nunca mais se reencontrariam e que as suas almas não se reconheceriam. Mas ela... ela guardou-o sempre no seu coração, pois acreditava que, pelo menos durante o tempo que estiveram juntos, ele foi o homem da sua vida.

Escrito em 16.01.2013 às 1h18